Dizem-me que o Benfica perdeu. “Dizem-me”, visto que eu já fiz uma promessa a mim mesmo de não assistir a mais jogos do Glorioso esta época. Por duas razões e meia: 1) o Benfica não está a jogar nada, 2) o FC Porto está a jogar muito, 2,5) o Sporting não sei quê. Evidentemente, o primeiro facto, de o Benfica não estar a jogar nada, nada tem que ver com ganhar campeonatos. Há muitos anos que o FC Porto, grande parte das vezes sem ser melhor do que os seus adversários, ganha campeonatos sem precisar de jogar o que quer que seja. Quanto à segunda razão, as suas conclusões derivam da primeira: o FC Porto apenas joga muito porque o Benfica nada joga. A segunda e meia razão nada tem que ver com tudo isto, tratando-se de uma mera constatação de facto: “o Sporting não sei quê”. Haveria, caso o Benfica quisesse ser bi-campeão, que jogar à bola. Mas não, o Benfica não quer jogar à bola, quer jogar futebol, uma assunção de um desejo de copiar o que se faz a Norte. No Centro e Sul, as pessoas sempre jogaram à bola. É no uso desta expressão que vemos a diferença entre quem gosta de futebol, e cresceu a analisar as tácticas de Cruyff, Trappatoni e companhia, e quem se fez homem inspirando-se mais nas tácticas da Comorra do que no glorioso mistério da numerologia futebolísitca: 4+4+2=11. Por todas estas duas e meia razões e outras a ser debatidas nos locais próprios (que, no caso da bola, tanto podem ser tribunais como restaurantes da Bairrada), não vejo mais jogos do Benfica esta época. Posto isto, prometo que se o Pinto da Costa ganhar a Liga Europa passarei a ser portista, pelo menos tão portista quanto o Jorge Jesus é benfiquista.
há quando houver
"Bear in mind that you should conduct yourself in life as at a feast." Epictetus
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
a evolução da espécie
David Myatt é inglês e tem um blog, onde publica artigos de opinião, cartas abertas e textos densos, repletos de referências, estrangeirismos e palavreado anacrónico. Chegou até mim através dos alertas do Google. (É simples, introduzimos os nomes dos autores, clube de futebol ou banda rock de que gostamos e o Google avisa-nos diariamente do que é publicado em sites ou blogs sobre o tema.) Eu não conheceria David Myatt se não fosse Martin Amis. O que liga os dois? Myatt publicou uma carta aberta ao escritor, que o terá citado num texto e numas palestras. Até há alguns anos, David Myatt era membro da extrema-direita inglesa. Neo-nazi. Entretanto, converteu-se ao Islão. Escreve Amerika (sim, com “k”), usa termos como kaffir (infiel) e acusa Amis de desejar um Islão submisso a ideias ocidentais. Assim, de repente, estou já a imaginar as loucuras de que Amis seria capaz: direitos humanos, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, democracia. Ou seja, Amis quer um Islão feito de muçulmanos que abandonaram a “Jihad Fee Sabilillah and Al-wala wal-bara”. Atente-se nisto: David Myatt queria discutir política – isto é política – e meteu-se com um dos melhores escritores da Língua Inglesa da actualidade. A diferença entre os dois: Myatt continua a ser intrinsecamente fascista – substituiu o nacional-socialismo pelo Islão, Hitler por Maomé e o Mein Kampf pelo Corão. O erro de Amis: dar-lhe tempo de antena. A minha avaliação de tudo isto: eu nunca leria um romance escrito por David Myatt.
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terça-feira, 4 de maio de 2010
curso intensivo de História de Portugal
As pessoas educadas sabem que, enquanto potência global, Portugal não resistiu mais do que trinta ou quarenta anos, no século XVI (época que coincidiu com a única fase de expansão económica do país). Na verdade, a primeira bancarrota de que há memória em Portugal data de 1560 – ou seja, quatro anos depois de Luís Vaz de Camões terminar Os Lusíadas. A partir de então, os holandeses entretiveram-se com os espanhóis, que se entretiveram com os ingleses, que se entretiveram com os franceses, que se entretiveram com os alemães, que se entretiveram com toda a gente, que se entreteve com Hollywood. Entretanto, os portugueses somaram crises a outras crises e foram à falência uma boa meia dúzia de vezes entre meados do século XIX e XX, antes de encontrarem um Salazar capaz de pôr os cabelos em pé à Nato, aos revolucionários das colónias e ao PCP em geral e Álvaro Cunhal em particular. Depois, fizemos uma revolução pacífica – para não mudar quase nada a não ser as caras dos que mandavam, e por isso pacífica –, aderimos à CEE e à moeda única, descobrimos o Big Mac, perdemos a final do europeu para a Grécia e, hoje, corremos o risco de perder o Euro por causa dos gregos. Em meio de tudo isto, valha a verdade que reconstruímos a Baixa. Por outro lado, edificámos o Colombo. Bardamerda para este país.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
to rate or not to rate
É dia de Barcelona x Inter. Um tipo acorda pela manhã, a pensar na táctica do Mourinho e no guarda-roupa do Guardiola, e leva com uma agência de rátingue nas primeiras páginas dos jornais, dizendo o que todos sabemos pelo menos desde que Viriato foi perfidamente assassinado: Portugal não tem um futuro risonho pela frente. Em primeiro lugar: o que são as agências de rátingue? As “agências de notação financeira” (obrigado Wikipédia) são umas agremiações que têm como objectivo único fazer manchetes de jornais e chatear países da Europa do Sul, usando o sistema de avaliação Zezé Camarinha (quanto mais nórdicas melhor). Recentemente, os cidadãos mais atentos ao fenómeno económico puderam constatar o papel desempenhado por estes bullies da Economia na crise do subprime. Que é o seguinte: eu vivo na Califórnia e tenho um vizinho “Ninja”*, que é pobre e não tem emprego, a precisar de comprar casa (de início ele até nem queria, mas eu consegui convencê-lo). Eu, que sou um tipo simpático e adoro ajudar o próximo, compro dinheiro aos bancos, a juros baixos, e empresto ao meu vizinho, que me pagará com juros dez vezes mais altos. Passados alguns anos, o meu vizinho vai à falência**, deixa de pagar-me, passa a viver debaixo da ponte e, porque a Internet propaga quaisquer vírus, a crise alastra à Europa. Dois anos depois, as agências de rátingue, que me tinham avaliado como sendo o tipo mais sério do mundo***, desatam a prever/provocar [riscar o que não interessa] outras crises: “Os gregos são maus pagadores. Mykonos é uma pouca-vergonha. Leave your feta out of my salad!” Para complicar tudo, as Standard & Poor’s, Fitches e Moody’s actuam em conluio com uns tipos que estão mortos por fazer “short selling de activos emprestados na expectativa de os comprar posteriormente por um preço inferior” (não me peçam detalhes, mas deve ser mau). O que nos leva à manchete do Público: “Juros de Portugal iguais aos da Grécia quando esta pediu ajuda”. Ora, ler isto ao pequeno-almoço é obra. Mas, como enquanto há vida há esperança, parece que aquele argentino pequenino com alcunha de afaníptero nunca marcou golos às equipas do special one. E não consta que deva dinheiro a bancos.
* Ninja: No Income, No Job, no Assetts
** Fenómeno económico muito notado no Portugal cavaquista (quando os jovens agricultores portugueses de até 55 anos declaravam bancarrota depois de receberem cheques de milhões de euros da UE) e que consiste na impossibilidade de uma entidade singular ou colectiva pagar o “fiado” da mercearia
*** Índice AAA (ou Deus no Céu e o Madoff na prisão)
* Ninja: No Income, No Job, no Assetts
** Fenómeno económico muito notado no Portugal cavaquista (quando os jovens agricultores portugueses de até 55 anos declaravam bancarrota depois de receberem cheques de milhões de euros da UE) e que consiste na impossibilidade de uma entidade singular ou colectiva pagar o “fiado” da mercearia
*** Índice AAA (ou Deus no Céu e o Madoff na prisão)
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